domingo, 1 de dezembro de 2013

Extemporâneo

Um cheiro primaveril
Pairava no ar
E o Inverno nem chegara ainda.

Para uns já era algo sazonal,
Só colhiam da árvore vital
Na altura em que
Todas as flores desabrochavam.

Era o fruto da época da Primavera,
Mas pelos meios mais inortodoxos
Desfrutei da surpresa da Natureza
No tempo em que nada havia de nascer.

O movimento retardado de crescimento
Proporcionou as melhores condições
Para um broto vir ao de cima (ou ao de baixo).

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Desencontrados

Já te foste embora. Não é algo novo, já está habituado a despedidas mas nunca consigo suportar a tua. É como uma faca, esventra-me. Não sabes nem consegues imaginar a falta que tu me fazes no dia-a-dia; pode ser meloso, ridículo e alvo de chacota, se assim o quiseres, mas eu nutro tanto mas tanto por ti. Podes sentir o mesmo mas não tanto quanto eu. É estúpido quantificar um sentimento, ou se sente ou não se sente, mas por ti sinto mais do que devia sentir, sinto para além do sentimento; é o que me fazes.
Não só despertas o melhor em mim como o pior; por ti talvez seria a pessoa mais egoísta no mundo, não pensaria duas vezes em salvar-te se perante mim fosse posta a difícil escolha de salvar mil ou a ti.
Já te foste embora e a nossa despedida não foi marcada, não foi vinculada na minha memória e por isso agradeço-te. Por não teres tornado a tua saída memorável agora quase sinto que ainda estás aqui; ainda consigo sentir o teu cheiro pairar no ar, esse teu doce aroma que relembra-me todos aqueles abraços de segundos que para mim eram a eternidade, não queria nunca mais sair dali, dos teus braços; lembro-me dos teus olhos como duas grandes avelãs e como cada vez que os nossos olhos se encontravam na fuga de não nos encontrar e era como se Deus finalmente desse a resposta ao propósito da vida, isto.
A melhor coisa que me aconteceu foste sempre tu e agora foste embora sem nem a única palavra que sempre te quis ouvir dizer ecoares; não é justo! Eu pensava que o dirias antes desta partida, eu sabia que iria acontecer mas não de um momento para o outro.
A minha imaginação não me chega, preciso de ti aqui, agora, como nunca antes estivestes, presente; o amor que sinto por ti apenas me deixa nesta ilusão da espera do teu retorno, porque é que te foste embora? Porque é que me deixaste? Tu sabias que eu precisava de ti e mesmo assim partiste... No final, se calhar, nunca quiseste mesmo saber de mim, se assim o fosse nunca o farias, nunca me deixarias como me prometeste.
Se te foste então não quero mais viver, não preciso, é tudo em vão; é ridículo estar aqui a tentar pensar em verbalizar o que me transcende. Isto nunca foi um adeus, foi sempre um até já, tu não me vais deixar. Eu não preciso mais de te implorar, agora corro atrás. Nós, isso é que não foi em vão e é por isso que vou à tua procura; vejo-te do outro lado. Espero que me recebas com carinho.

domingo, 20 de outubro de 2013

Passar a Ferro

Depois de tanto pensar
E matutar,
Descobri que vestia
A vida às avessas.

E quando me deu para vesti-la
Como deve de ser,
Descobri que o outro lado havia sido
Corrompido por manchas sem fim de sangue e suor.

Vi então o quão horrível essa era,
Só queria queimá-la de mim,
Exorcizá-la para um complexo paralelo.
Para um Universo o mais próximo de distante.

Não gostava de ver-me,
Por isso despi-a mais uma vez.
A partir de agora ia usá-la,
E com orgulho, às avessas.

Ao olhar-me ao espelho só queria chorar.
A parte mais bela de mim, outrora limpa e pura,
Agora havia se tornado tal e qual como a que havia escondido.
Manchada, sem forma de retorno, não-lavável.

Já não tinha o que vestir e
Pela minha cabeça só passava a desistência.
Não queria ter que usar aquilo.
Por isso assim o fiz, desisti.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Desconexão

Eu tenho um sonho recorrente,
Todas as vezes que eu perco a minha voz
Engulo pequenas brilhantes luzes.

De trás para a frente no crepúsculo,
Esquecido na hora santa daqueles não cristãos,
Dava uma caminhada dada pelo tempo.

Eu tenho um sonho recorrente,
Todas as vezes que eu sinto uma rouquidão
Engulo feixes cálidos e brilhantes de luz.

As rugas das ruas tinham sido esticadas
E as luzes nunca acesas, apagadas.
Era só um sonho recorrente de um passeio.

Um inortodoxo cheiro a menta forte e árida
Pairava pelos teus lábios.
Era pagão, era bruxedo, era um embuste.

Acorda! Sai! Estás preso!
Foste apanhado no desabar de uma planície!
É só mais um sonho recorrente!

domingo, 18 de agosto de 2013

Amanaemonesia

Era pálido e perdido o olhar...
Não tinha nele nem uma explicação
Do porquê havia ele escrutinado o luar,
Pensando neste como a divina perdição.

Era a mais serena convivência
Do esquecimento e do alívio
De tudo o que foi despedaçado.

Era sim a mudança para pior.
Era a resposta que tinha sido deixada em aberto,
Uma certeza não tinha sido dada sobre o que era o amor.
O amor que por ti não era sentido.

Era um ressentimento que não havia sido declarado,
E era também a morte
Da mais remota hipótese de um uno ser criado.

Era um alívio sentido.
Uma mágoa chorada, berrada.
Era mais um sentimento esquecido
Pela afronta do tempo e espaço.

Era assim o teu olhar, perdição,
Mais uma vez derrotar-me e de mim
Levar tudo abaixo do chão.

A Lua pelo menos desta vez sorriu de volta.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Matriz

Esquecido pelo esquecimento.
Reconfortado pelo desejo
Do mais tépido e caloroso desalento.
Algo turbulento e de uma alma caridosa só um beijo.

Era, sim, a sua origem, uma sombra apagada
Por luzes inebriantes e ofuscantes de um ser maior
Que ansiava uma maior tenebra de mim libertada.
Uma pequena caixa de Pandora. Era um favor.

De espírito de criança frágil e inocente, uma mera curiosidade.
Essa que libertaria uma das mais desconhecidas
Maldades, pela sociedade.
Amor, se apoderava daquelas pobres vidas.

Eram seres frágeis que viviam de paixões repentinas.
Eram seres estranhos que esqueciam a sua matriz.
De repente fechou, para a vida, as suas cortinas.
Aquela janela desapareceu e só lhe restava voltar à sua raiz.

Triste a convivência
Entre um estado de eterna pura dormência
E a mais sã consciência.

Era só mais um erro.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Casa

Estive à porta dela e receei tocar à campainha.
Ela podia abrir e eu podia entrar.
Seria tudo muito repentino e
Eu não saberia como reagir a este desenrolar.

Seria amor aquilo que me fizeram?
Pegarem em mim e puxarem-me para longe dela?
Será que foi o melhor? De mim apenas vieram
Mais chances e alternativas de lhe entrar casa a dentro...

E uma enorme vontade de dormir,
Dormir com ela e acordar num lugar branco.
Seria melhor. Seria a paz. Seria eufórico.
Acho que não poderia estar mais completo.

Mas agora estou preso na enorme rua,
À espera do clarão venha por si mesmo.
Porém a verdade nua e crua,
É que eu quero voltar o mais rápido possível e puder bater-lhe à porta.

Não quero ficar mais na rua, não quero
Que haja um lugar para mim e eu persista desabrigado
No meio de uma estrada na esperança de um carro passar
Quando posso sentir-me em casa no lar dela.

Canta-me uma canção.